Os nossos artigos

O milagre do nascimento

Como uma única célula fertilizada se torna uma criança? O que esse processo diz sobre nós – e sobre Deus? Essas foram as perguntas que o Professor Jeff Hardin fez em sua aula no Instituto Faraday, mês passado. Jeff é especialista em biologia celular e do desenvolvimento. Tendo estudado tanto teologia, quanto ciência, ele tem uma perspectiva singular sobre o desenvolvimento embrionário, que certamente me chamou a atenção.

Um bebê recém-nascido é formado por cerca de 5 trilhões de células. Essas células são de centenas de tipos diferentes e cada uma delas precisa estar no lugar certo para que o corpo da criança funcione corretamente. Cada vida nova é o resultado do processo complexo e altamente ordenado do desenvolvimento embrionário e os estágios mais importantes ocorrem nas primeiras semanas.

Três coisas precisam ocorrer durante o desenvolvimento do embrião. O primeiro processo importante é a diferenciação, quando as células recebem a sua identidade para se tornarem músculos, ossos, nervos etc. O segundo processo é a padronização, onde cada célula descobre a qual parte do corpo ela pertence. O terceiro é a morfogênese, quando as células se deslocam pelo embrião para formar os diferentes órgãos e tecidos. Esses três estágios não ocorrem de maneira distinta, mas simultaneamente e gradualmente, pouco a pouco, como os diferentes aspectos de uma imagem se resolvendo até estarem em foco.

Todos esses processos são impulsionados: pelo movimento das células, as conexões entre elas e os sinais que elas transmitem umas às outras. O Professor Jeff estuda o complexo ‘caderina’, uma espécie de adesivo celular que está relacionado à junção das células. A formação e destruição dessas adesões pode afetar o movimento das células, os sinais entre uma e outra, a sua identidade no corpo, a sua organização em grupos e, em último caso, a sua sobrevivência. Em três semanas, tudo isso já aconteceu em um embrião que ainda se parece um amendoim. O resto que precisa acontecer é basicamente o crescimento nas direções certas.

Estudar o funcionamento das caderinas em embriões humanos não é possível, mas felizmente essas proteínas são encontradas na superfície das células de

embriões em todo o reino animal, incluindo os pequenos vermes que o laboratório de Jeff estuda. Para Jeff, observar os embriõezinhos desses vermes através de um microscópio pode ser um ato de adoração. É também um exercício de apreciação artística, visto que ele aprende a contemplar a ordem criada. Mas ainda existem questões a serem resolvidas. Será que a escala minúscula dos primeiros dias do nosso desenvolvimento, comparada com o universo incompreensivelmente vasto e antigo, nos dá uma sensação de insignificância? Há também o problema do reducionismo. Será que nós não passamos de um amontoado de células?

Em seu livro The Great Partnership (A Grande Parceria), Jonathan Sacks escreveu, “A ciência separa as coisas para ver como elas funcionam; a religião as une para ver o que elas significam.” O Professor Jeff vê isso como uma peça-chave para a solução dos problemas da insignificância. Aliás, esse sentimento de pequenez não é novidade. Por exemplo, o Salmo 8 diz: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres, e o filho do homem, que o visites?” Para Jeff e o salmista, esses sentimentos podem ser uma experiência positiva, se servirem de um lembrete para sermos humildes frente a um universo que é extremamente complexo, mas também profundamente cheio de sentido, feito por um Deus que tem um plano para as nossas vidas.

A outra experiência singular para um cristão estudando embriologia é que a segunda pessoa da Trindade se tornou um embrião. A escritora americana Luci Shaw descreveu isso em seu poema Made Flesh (Se Tornou Carne). Entender as complexidades do desenvolvimento, enquanto se tem consciência de que Deus conhece esse processo intimamente como Criador e como criatura, enche Jeff com um profundo senso de temor, admiração e adoração.

Se Tornou Carne

(…)

Depois que o clarão da anunciação

fundiu os céus com a Terra escura,

a Sua ofuscante e penetrante luz

desapareceu por um momento.

Eclipsada pela sombra amniótica:

a serena imensidão do seu esplendor,

sua graça universal,

cuidadosamente dobrada no escuro aconchegante

do interior feminino.

(…)

Partilha este artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.