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Alfred E. RieckO Destino

Por Alfred E. Rieck

Era de tarde quando, naquela sexta-feira, saí do táxi e entrei no aeroporto de uma importante cidade americana. Os recentes eventos políticos globais também tinham tido o seu impacto aqui, dando origem a controlos de segurança mais rigorosos e demorados do que o habitual neste país. Por isso, passou bastante tempo até que me deixassem entrar na sala da companhia área onde eu esperaria o meu voo. A maioria dos passageiros estavam a estudar os seus apontamentos, a trabalhar nos computadores portáteis ou a telefonar dos telemóveis. Alguns mantinham típicas conversas de sala de aeroporto – superficiais e inúteis. Outros pareciam estar a pensar profundamente, fitando com atenção, através da enorme janela da frente, o que facilitava uma vista maravilhosa dos aviões parados pertencentes a uma grande variedade de nações.

As minhas próprias contemplações foram interrompidas quando dois homens me perguntaram se os lugares ao meu lado ainda estavam livres. Calculei que tivessem os seus 55 anos. Eles tinham a imagem típica de grandes empresários, bem vestidos, fatos caros, eloquentes e dinâmicos. Aparentavam serem bem sucedidos e totalmente determinados e infalíveis. Pareciam conhecer-se há muito tempo – falavam sobre as suas mulheres e filhos – e estar bem familiarizados um com o outro. Ficava-se com a impressão de que se entendiam e se estimavam um ao outro.

Mais uma vez, foquei a minha atenção no artigo que estivera a ler. Era um relatório acerca dos escândalos recentes de fraude no sistema de contabilidade nos EUA, que levaram à ruína grandes empresas, bem conhecidas, como a Enron e a WorldCom. O artigo descrevia também as consequências destas falências para muitos dos pequenos investidores – pessoas que haviam participado com as suas poupanças e os seus investimentos nestas companhias. Estas pessoas esperavam assegurar uma pensão individual e agora, em vez disso, tinham de enfrentar um desastre financeiro. Pensavam que os Directores Executivos destas empresas eram fidedignos e agora descobriram que foram enganadas. Será que estes empresários tinham algum sentido de responsabilidade? Se sim, por quem é que se sentiam responsáveis? Estas pessoas haviam trabalhado apenas para seu próprio benefício?

Os meus pensamentos foram interrompidos pelo anúncio de que o embarque estava a começar e que nos devíamos dirigir à gare. Uma assistente de bordo, amável, cumprimentou-nos à medida que entrávamos no avião e ajudou algumas pessoas a encontrar os seus lugares. O ambiente a bordo era invulgarmente amistoso e descontraído. O avião encheu-se lentamente de passageiros e descobri que os dois senhores da sala de espera se tinham sentado na fila atrás de mim. O comandante apresentou-se através do microfone interno e deu as boas vindas aos passageiros. Enquanto o co-piloto conduzia o avião para a pista, o comandante explicava em pormenor o voo. A decolagem e a subida foram suaves e, no espaço de minutos, tínhamos alcançado a altitude certa.

A classe executiva estava silenciosa. A maioria das pessoas lia jornais ou revistas que tinham trazido, ou limitava-se a desfrutar o pôr-do-sol. A agradável atmosfera, que já me tinha surpreendido quando entrei no avião, estava a tornar-se o tema de conversa a bordo. Os passageiros falavam sobre isso e, como seria óbvio, estavam agradavelmente surpreendidos. Seria uma nova filosofia de marketing da companhia aérea? Entretanto, todos acabaram de jantar e muitos passageiros adormeceram. Decidi juntar-me a este grupo porque queria chegar à Alemanha bem descansado no dia seguinte e gozar um bom fim-de-semana com a minha família.

Várias horas depois, a assistente de bordo acordou-me. Levantei-me e fui à cozinha da frente. Aí encontrei os dois homens que tinham estado sentados atrás de mim e também o comandante. Eles sorriram quando me viram e arranjaram algum espaço no círculo para que eu pudesse juntar-me a eles. Estavam a desfrutar de uma chávena de café quente, forte e aromático. Obviamente, tinham estado acordados durante algum tempo porque as ideias que trocavam discretamente para não perturbarem os outros passageiros eram muito intensas e fundamentais, até existenciais. O mais baixo dos dois estava muito impressionado e bastante perturbado pelos recentes eventos globais.

Alfred E. RieckFalou do 11 de Setembro de 2001 e de como os monumentos característicos da liberdade – referia-se ao World Trade Centre em Nova Iorque e ao Pentágono – ficaram subitamente destruídos de um modo dramático e chocante. Falou dos ataques terroristas na Tunísia, em Moscovo, em Bali e no Quénia. Conversou sobre a Guerra do Golfo e a forma mais recente do crime de colarinho branco, da fraude bancária e das falsificações dos extractos de conta que aconteceram na Enron e na WorldCom. Pelo seu tom de voz, podia ver-se que estava incomodado com estes eventos e também preocupado com o futuro. Fez a pergunta que, provavelmente, todos fizemos em certa altura: O que se está a passar neste mundo e por que é que tudo isto está a acontecer – quais são as razões por trás disto e o que podemos fazer?

Fez-se silêncio após estes pensamentos sérios que resultaram, provavelmente, do impacto dos eventos, assim como da incapacidade para responder a estas questões. Depois de um momento de silêncio, o mais alto dos dois retomou o fio da conversa. Perguntou ao amigo se ele nunca vira uma certa ordem metódica por trás destes eventos. O amigo olhou para ele com consternação e surpresa. Não conseguia imaginar de modo algum que houvesse qualquer tipo de ordem por trás destes eventos arbitrários. O mais alto dos dois continuou. Disse que tinha a impressão de que havia de facto uma certa base racional propositada e reconhecível por trás destes actos e procedeu à explicação desta convicção. Disse que a destruição material representava apenas um aspecto dos eventos do 11 de Setembro de 2001. Podiam identificar-se dois traços muito importantes de um padrão de pensamento específico e das acções correspondentes. Era utilizado um certo mecanismo para atingir um determinado fim. Dois elementos-chave numa ordem muito clara: destruição e poder. Poder para alterar os pensamentos e as acções de outros. Disse que cada vez mais vê este padrão básico de destruição e de pretensão de poder, respectivamente a defesa de poder, também na área dos negócios. Mencionou o actual problema dos motins nas empresas e, também, da distorção dos balancetes e da fraude. Disse ao seu amigo: “Observa melhor e vê o que realmente aconteceu aqui.” Neste caso, também se usou um instrumento para se alcançar um determinado objectivo; o instrumento foi a fraude com o objectivo de acelerar o lucro pessoal e o aumento do reconhecimento pessoal. Também aqui se encontram dois elementos chave numa certa combinação: Fraude e lucro pessoal.

Este mecanismo – fraude e lucro – já produziu um grande impacto na história mundial, nomeadamente no sistema comunista. Nesse caso, houve igualmente fraude em relação à população dos Estados comunistas para que um pequeno grupo privilegiado conseguisse atingir um padrão de vida bastante bom. Tinham os mesmos motivos que os directores comerciais da Enron, da WorldCom e de muitas outras empresas. Após uma curta pausa olhou para o seu amigo, que ficara cada vez mais silencioso e perguntou-lhe: “Não notas nada? É sempre o mesmo mecanismo. Os interesses próprios são o foco do pensamento e das acções de alguém, e é sempre à custa dos outros.”

Os objectivos – o poder e o lucro.

Os instrumentos – a fraude e a destruição.

Os motivos – o egoísmo.

O homem mais baixo olhou para o amigo. Fez-se um grande silêncio no nosso círculo. Então, o mais baixo interrompeu o silêncio de repente e disse: “Este mecanismo de que falas é-me familiar devido à minha vida pessoal.” O mais alto continuou a explicar as suas ideias. Com voz séria, disse que ultimamente havia chegado a estas conclusões básicas: O nosso mundo não é governado por dois poderes militares e económicos diferentes, mas sim por dois conceitos de vida essencialmente muito distintos; um conceito, que tem um efeito destrutivo e o outro, que tem um efeito construtivo, positivo e de elevação nos humanos e na nossa sociedade. A verificação lógica é o facto de que, mesmo depois do final da era dos dois poderes económicos e militares, ou seja, com o fim da Guerra-fria, o efeito destrutivo tem permanecido no mundo.

Se o nosso mundo é na verdade como as pessoas têm frequentemente afirmado, governado por dois poderes económicos ou militares diferentes, o mundo teria de experimentar a paz, o crescimento e a prosperidade após o colapso do comunismo clássico. No entanto, como todos sabemos, este não é o caso. Parece que temos de nos questionar sobre qual o conceito que queremos escolher. Mais tarde ou mais cedo teremos de decidir qual o papel que queremos desempenhar neste mundo. Será que queremos influenciar positivamente, será que queremos ter um impacto positivo no nosso ambiente pessoal directo e na nossa sociedade, ou deixamo-nos motivar igualmente por estes mecanismos negativos? No princípio, pode parecer que conseguimos alcançar muito mais depressa objectivos que valem a pena, se formos influenciados por estes mecanismos. Não tomar nenhuma decisão não é uma alternativa. Não existe um terreno neutro onde se possa refugiar e ficar a observar o que se está a passar no nosso meio pessoal ou na sociedade. Quem tentar fazer isso, age de forma irresponsável e permite intencionalmente, através da aceitação directa das condições dadas, que outras pessoas estejam a ser vítimas. Este tipo de comportamento faz com que, automaticamente, se pertença ao grupo que comete fraude contra os seus semelhantes.

Estas palavras foram profundas. Todos sentimos que os pensamentos dele não estavam nada longe da realidade. Todavia, o impacto das suas palavras e o seu conteúdo tornaram-se mais claros e assustaram-nos um pouco. Senti um certo nervosismo interior e imaginei que o amigo do homem de negócios sentia o mesmo. Fez-se um grande silêncio. O comandante foi o único que se manteve muito quieto e calmo enquanto o homem mais alto falara. Perguntou-nos: “Por que será que os humanos têm de escolher sempre a maneira mais difícil e mais complicada?” Naquele momento, ninguém sabia do que ele estava a falar. Percebendo isso, continuou:

“O desenvolvimento da engenharia deste mundo já nos disse, no seu manual de instruções, que o mundo é governado por dois poderes contrários. Estes não são poderes militares ou económicos, mas sim, um Criador e um destruidor, Deus e Satanás. Nós, humanos, temos de decidir, mais tarde ou mais cedo, qual a direcção do voo e qual o aeroporto de destino que queremos escolher para a nossa vida. Ou queremos aterrar no nosso aeroporto com o nosso Pai Celestial, ou queremos aterrar no aeroporto do destruidor que deseja a nossa destruição. Sem uma escolha consciente do aeroporto, iremos voar à volta sem destino e, mais tarde ou mais cedo, iremos despenhar-nos, irremediavelmente, devido à desorientação.”

Com estas palavras deixou-nos e voltou para a cabina para preparar a aterragem no aeroporto.

Em que voo estamos: no que nos afasta do Criador, ou no voo que conduz até Ele?

Em que voo estás?


Alfred E. Rieck, Skoda,  Alemanha

Alfred E. Rieck é o Director da Skoda na Alemanha, tendo obtido vários prémios nacionais e internacionais pelo seu trabalho na indústria e comércio automóvel durante a época em que trabalhou para o grupo VW como Director Comercial de Marketing. Este alemão nascido em Portugal há 49 anos atrás, reside actualmente em Wolfsburg, na Alemanha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 
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